O Conselho Nacional de Transição (CNT) da Guiné-Bissau intensificou esta semana as críticas dirigidas a líderes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), acusando o Presidente de Angola, João Lourenço, de adotar uma postura “hipócrita” ao condenar o golpe militar ocorrido em Bissau, enquanto, segundo o órgão de transição, ignora alegados problemas eleitorais no seu próprio país.
As declarações surgem na sequência do discurso de João Lourenço, proferido no sábado, no final do seu mandato como presidente em exercício da União Africana, no qual condenou firmemente a tomada do poder pelos militares na Guiné-Bissau, defendendo que a normalização de governos militares em África constitui uma ameaça à estabilidade institucional do continente.
Em resposta, o CNT reagiu com dureza. O seu porta-voz, Fernando Vaz, afirmou que vários chefes de Estado africanos e lusófonos estariam a tentar “dar lições de democracia” à Guiné-Bissau, apesar de, alegadamente, enfrentarem crises políticas e eleitorais internas. Segundo Vaz, essas posições revelam uma atitude paternalista e seletiva na defesa dos princípios democráticos.
“O Presidente angolano esquece, por conveniência, que eleições fraudulentas e processos eleitorais viciados constituem, por si só, golpes constitucionais”, declarou o porta-voz, acrescentando que tais práticas silenciam a oposição, fragilizam as instituições e mantêm apenas uma “fachada democrática” voltada para o exterior. O CNT, que está no poder desde o golpe militar de novembro de 2025, tem reagido de forma contundente a todas as declarações internacionais que condenam a interrupção do processo eleitoral na Guiné-Bissau. Entre os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, o órgão de transição tem poupado publicamente apenas Moçambique e o Brasil, mantendo uma linha crítica em relação aos restantes Estados-membros que exigem o regresso imediato à ordem constitucional.