Luanda — Crescem em Angola os apelos para que o governo adote uma postura mais vigilante e firme perante as potenciais ameaças externas que visam fragilizar a estabilidade democrática do país.
O alerta surge na sequência das recentes manifestações violentas que abalaram algumas cidades angolanas e que, segundo investigações preliminares, poderão ter sido influenciadas por agentes estrangeiros.
A detenção de dois cidadãos russos nomeadamente Lev Lakshtanov, de 63 anos, e Igor Racthin, de 38 anos em Luanda a 7 de Agosto de 2025, levantou sérias suspeitas de que as manifestações possam ter sido parte de uma estratégia mais ampla de desestabilização política em África.
De acordo com fontes próximas da investigação, os detidos teriam ligações com redes internacionais que já operaram em países como o Tchade e a República Centro-Africana, onde também foram registados episódios semelhantes e detidos indivíduos de nacionalidade russa.
Esses grupos, em alguns casos, têm-se infiltrado em território africano disfarçados de jornalistas ou de membros de organizações humanitárias, operando sob a capa de ajuda social, tecnológica e de desenvolvimento.
O pastor Alicio Fernando, em declarações à nossa reportagem, considerou que a situação “não pode ser tratada de ânimo leve”. Segundo ele, “se já se começa a desmascarar a atuação russa em países africanos, é porque o problema é mais profundo e sério do que aparenta. O governo deve agir com firmeza e colocar todos os meios à disposição para travar essas ações”.
Também a estudante universitária Glória Azarias manifestou preocupação com o que descreve como “um novo tipo de colonialismo silencioso”, apelando a uma resposta imediata das autoridades. “É urgente uma atuação mais séria e enérgica do governo. Para além da tentativa de desestabilizar a democracia africana, há relatos de recrutamento de jovens, sobretudo mulheres, por empresas russas que prometem bolsas de estudo e emprego, mas acabam por levá-las a trabalhos forçados ou para fábricas ligadas à produção de materiais de guerra”, alertou.
Estudos recentes apontam para a existência de uma rede denominada África Politologia, alegadamente ligada a interesses russos, que estaria a operar em diversos países do continente com o objetivo de influenciar processos políticos e eleitorais. Apesar das acusações, Moscovo nunca se pronunciou oficialmente sobre o assunto — nem para confirmar, nem para desmentir.
Especialistas recordam ainda que indivíduos com ligações à inteligência russa e ao extinto Grupo Wagner — que chegou a atuar em Moçambique no combate ao terrorismo em Cabo Delgado — têm sido encontrados em operações semelhantes.
Para o analista político e docente universitário Raul Júnior (nome fictício, por razões de segurança), “Angola e muitos países africanos continuam frágeis e excessivamente permissivos nas suas relações internacionais. Qualquer investidor que traga dinheiro é recebido de braços abertos, sem uma avaliação séria dos riscos. É triste, mas é a realidade. Precisamos acabar com esta dependência perigosa que pode hipotecar o futuro das próximas gerações”.
Com o continente africano cada vez mais visado por disputas de influência global, o episódio em Angola reacende o debate sobre a soberania, a segurança nacional e o papel das potências estrangeiras na política interna dos países africanos.