A invasão da Rússia à Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, ultrapassou há muito as fronteiras europeias e passou a ter reflexos diretos em várias regiões do mundo, incluindo África. Para além do impacto nos mercados de energia e alimentos, o conflito tem sido acompanhado por uma intensificação da presença política, militar e de segurança russa no continente africano.
Em Angola, as autoridades detitiveram de dois cidadãos russos nomeadamente Igor Rotchin Mihailovich (38 anos) e Lev Matveevich Lakshtanov (64 anos) suspeitos de envolvimento em atividades consideradas desestabilizadoras da ordem democrática. Segundo fontes de segurança, os indivíduos estariam ligados a redes internacionais compostas por antigos agentes dos serviços secretos russos, alegadamente envolvidas em operações de influência política, apoio a grupos armados e campanhas de desinformação em vários países africanos.
Casos semelhantes têm sido relatados noutras nações. No Chade, um grupo com características semelhantes teria sido neutralizado pelas forças de segurança locais, reforçando preocupações sobre a atuação de estruturas paralelas associadas a interesses estratégicos russos no continente.
Joel Neruba politico e analista apontou “a guerra na Ucrânia como sendo o motivo para o aumento da necessidade de Moscovo expandir alianças e zonas de influência, recorrendo não apenas à diplomacia tradicional, mas também a empresas de segurança privada, consultores políticos e redes informais com ligações ao antigo aparelho de inteligência soviético e russo”.
Recrutamento e indústria de guerra
Outro ponto de preocupação é o alegado recrutamento de cidadãos africanos para apoiar o esforço de guerra russo. Relatórios e denúncias indicam que mulheres africanas, inclusive da região da África Austral, teriam sido aliciadas com promessas de emprego ou estudo para trabalhar em fábricas ligadas à produção de armamentos e drones militares.
A proximidade geográfica e política com países como a África do Sul, onde foram relatados casos de recrutamento, aumenta a atenção das autoridades regionais para possíveis redes de captação que atuem também em países vizinhos.
Organizações de direitos humanos alertam para o risco de exploração laboral, tráfico de pessoas e envolvimento indireto de civis estrangeiros numa guerra externa, frequentemente sem plena consciência das atividades a que serão submetidos.
África no tabuleiro geopolítico
João Samulengo religioso e analista, considerou que “o continente africano voltou a assumir papel estratégico na disputa global entre grandes potências. A presença russa tem crescido em áreas como segurança, mineração, energia e comunicação, muitas vezes em contextos de instabilidade política ou fragilidade institucional. Para Angola país com peso regional e histórico de relações com Moscovo, os recentes acontecimentos levantam preocupações sobre soberania, segurança interna e interferência externa. As autoridades têm reforçado mecanismos de vigilância e cooperação internacional para prevenir eventuais ameaças à estabilidade política”.
Um conflito globalizado
Quatro anos após o início da guerra na Ucrânia, Graciano Catotanlã e Antonieta Cesaltina Kulanda, dois políticos que concordam que “o conflito deixou de ser apenas europeu e passou a influenciar dinâmicas políticas e de segurança em várias partes do mundo. As detenções em Angola, os episódios no Chade e os relatos de recrutamento no sul de África ilustram como a disputa entre Rússia e Ocidente se projeta para além do campo de batalha”.
Num contexto de crescente competição geopolítica, África surge simultaneamente como parceira estratégica e palco de influência, tornando os desdobramentos da guerra Rússia–Ucrânia um tema de segurança internacional também para os países africanos.